O primeiro jogo da Guerrilla Games após a série “Killzone” não poderia ser mais diferente dos tons de cinza e vermelho da franquia de tiro. “Horizon: Zero Dawn” é um dos jogos mais vibrantes e coloridos do PlayStation 4 e uma experiência imperdível para os proprietários do console.

“Horizon” se passa mil anos após o fim da civilização. Tanto tempo depois, esse mundo “pós-pós-apocalíptico” foi reclamado pela natureza e onde antes haviam metrópoles, hoje existem florestas tomadas pela vida selvagem.

A raça humana ainda está por aí, reunida em tribos mais ou menos primitivas que lutam para sobreviver diante dos novos senhores da Terra: grandes criaturas robóticas com forma animal, que vão desde manadas de tranquilos cavalos cibernéticos, os galopes, até feras enormes, como jacarés gigantes (Bocarras), tigres dentes-de-sabre (Serradores) e verdadeiros T-Rex metálicos (os Tirânicos), apenas para citar alguns.

Nem toda criatura é maligna: os Pescoções vagam pelas planícies mapeando o terreno sem oferecer ameaça para ninguém que não passe pelo meio de suas pernas – essas criaturas da altura de pequenos prédios são os brontossauros de “Horizon” e encontrar com um deles é sempre um assombro digno de “Jurassic Park”. Mas uma força misteriosa está mudando as máquinas, corrompendo seus sistemas e tornando-as verdadeiras ameaças para a já difícil existência dos Nora, Carja e outras tribos que habitam o mundo do jogo.

Desvendar o mistério da Corrupção e livrar o mundo dessa ameaça é uma das missões principais de Aloy, a heroína de “Horizon” e um dos personagens mais interessantes a aparecer num videogame nos últimos anos.

Após passar a infância como uma exilada da tribo Nora, proibida de falar com outras pessoas e afastada dos confortos da aldeia, Aloy se tornou uma exímia caçadora. Mais do que isso, livre dos dogmas religiosos de sua tribo, ela é curiosa com as máquinas e o mundo do passado – ainda mais depois de encontrar um item de alta tecnologia, o Foco, quando pequena. Com ele, Aloy é capaz de identificar alvos, identificar padrões de comportamento e seguir o rastro de seus alvos, entre outras coisas.

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Aloy não sabe nada sobre sua origem, quem são seus pais ou porque foi exilada desde o nascimento. A busca por essas informações leva a moça a se tornar uma Emissária da tribo e sair pelo mundo em uma jornada para combater a Corrupção e também, claro, de auto-conhecimento. Como em toda boa jornada heróica digna do nome, as respostas que ela procura estão tanto no mundo exterior quanto dentro dela.

Mundo perdido

As florestas temperadas ao redor da montanha onde os Nora habitam são belíssimas, mas estão longe de serem as únicas atrações do mundo de “Zero Dawn”. Aloy viaja por florestas, planícies, montanhas cobertas de neve e cânions desérticos, visita castelos e cidades dignas de RPGs medievais, explora abrigos fantasmagóricos cheios de lembranças de um mundo que já se foi, além de descobrir mais sobre as máquinas e o passado ao se aventurar nos Caldeirões. Essas pirâmides trazem puzzles e combate em igual medida e exigirão tanto dos recursos de Aloy quanto da perspicácia do jogador.

Toda vez que Aloy entra em uma nova região, é preciso compreender como funciona o ecossistema local e adaptar as táticas já desenvolvidas para os novos tipos de predadores. Não basta entender os pontos fracos e padrões de ataque do Pisoteador, um enorme bisão metálico capaz de atropelar pessoas e rochas com a mesma facilidade, mas também estar atento aos abutres robóticos que descem dos céus para saquear a carcaça da criatura – e que são ameaças ainda maiores para um caçador distraído que só queria coletar o saque das entranhas do monstro.

Combates e missões dão experiência, mas o saque é importante para aprimorar equipamentos, produzir poções, bombas e armadilhas, além de obter itens para negociar com vendedores encontrados pelo caminho.

A mecânica de combate tem um impacto nos recursos obtidos das feras caídas, o que torna a coisa mais interessante do que apenas golpear o mais forte possível. Danos pesados tendem a quebrar mais partes das máquinas e isso se reflete no “loot” que sobra no final. Às vezes é melhor se concentrar em ataques mais fracos e dano elemental nos pontos fracos do alvo para garantir um saque maior no final.

O combate à distância é o ponto alto das batalhas em “Zero Dawn”. Conforme progride, Aloy vai adquirindo um arsenal variado de armas e munições e novas habilidades tornam as brigas mais emocionantes. Além dos diferentes arcos, há estilingues para atirar bombas, armadilheiras para preparar emboscadas, lança-cordas para laçar criaturas e o chocalho, uma legítima escopeta que dispara pontas de flecha em alvos próximos.

Aloy também pode colocar armadilhas elementais (fogo, gelo, eletricidade e por aí vai) no terreno, se esconder na grama e atrair a atenção dos inimigos para pontos específicos do mapa e, com um adereço em sua lança, “hackear” máquinas para que mudem de lado, criando aliados temporários na hora do aperto.

O combate de perto, infelizmente, não é tão recompensador, tanto pela simplicidade dos movimentos quanto pela câmera confusa. Você não consegue travar a mira em um alvo específico para as lutas e a câmera tenta acompanhar a ação, mas isso só funciona se você pegar um oponente por vez. Assim que o segundo inimigo pula no meio da briga, a câmera vai variar entre “incrível” e “frustrante” muitas vezes até o fim da batalha.

“Horizon Zero Dawn” traz não só um mundo fantástico para explorar, mas a narrativa criada pela Guerrilla Games tenta sempre dar um peso extra para todas as situações encontradas por Aloy, desde a campanha principal e sua relação com outros personagens até as mais casuais missões secundárias, tarefas ou desafios nos campos de caça.

Mesmo atividades que, em essência, não passam de minigames, como percorrer trilhas de obstáculos dentro de um limite de tempo, ganham um significado maior ao serem inseridas na cultura dos povos de “Horizon”.

A trama principal é envolvente e faz você acompanhar a jornada de Aloy (e até se irritar um pouco com a quantidade de distrações que surgem pelo caminho). Cada avanço mostra uma nova camada da trama e o jogador pode decidir como interagir em determinadas situações, fazendo de Aloy uma protagonista mais esperta, mais carinhosa ou mais durona.

Certas decisões são difíceis de tomar e envolvem questionamentos sobre inocência, culpa e outros aspectos morais da personagem. E é muito bacana deixar essas decisões nas mãos do jogador, respeitando a história que ele está desenvolvendo com a personagem.

Não que a trama de “Horizon” seja algo totalmente inédito. Assim como as mecânicas de jogo são uma colcha de retalhos muito bonita de ideias vindas de “Far Cry”, “Tomb Raider”, “Monster Hunter” e “The Witcher”, a narrativa segue fielmente os passos da “Jornada do Herói” descrita por Joseph Campbell e bastante criticada por autores contemporâneos. Mas ser clichê nem sempre é ruim e a produtora Guerrilla Games mostra que arquétipos são ferramentas narrativas poderosas quando bem utilizados.

É o caso em “Horizon Zero Dawn”, um jogo que não só surpreende pelo esmero técnico, mas que, ao olhar sem medo para o que veio antes, aponta para o futuro como uma nova franquia cheia de potencial para os consoles PlayStation.

 

 

Agências/Via UOL


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